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Os jardins, magníficas metáforas da vida

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.05.09

Os jardins da minha infância, vejo-o agora, são magníficas metáforas do meu percurso e da forma como desenhei (ou deixei que outros desenhassem) o meu caminho de giz...  (1)

O da casa original, arrumadinho e previsível, em canteiros à volta da casa e em socalcos ligados por escadinhas de pedra (que, em si mesmas, são terrivelmente simbólicas).

Assim, nesse jardim, tudo estava no seu lugar: os mal-me-quer brancos de um lado, as dálias coloridas noutro, os amores-perfeitos, as rosas, e tudo no seu devido lugar. Ao lado do canteiro, já no cantinho da tília, um arbusto de rosas de Maio (parece-me que são as rosas de Santa Teresinha, segundo tenho procurado identificar, pois nem a minha mãe, que as plantou, lhes sabe o nome...). Para mim serão sempre as rosas de maio porque era nessa altura que floriam, na minha época preferida do ano, de cores e perfumes, dos dias mais longos para as tardes de brincadeiras, da Senhora e das procissões de velas...

Sim, arrumadinho também nos socalcos: o do chorão e do baloiço, o da relva, o das árvores de fruto e dos legumes, as groselhas, os morangos, e no cantinho do fundo a capoeira (temos histórias cómico-dramáticas por causa dos nossos galos de estimação...)

Este jardim arrumadinho estava em perfeita sintonia com a criança que eu fui: gostava de saber o lugar das coisas, a sua função, e tudo previsível. Mas talvez isso se devesse à minha miopia.  (2)

 

Só a pouco e pouco me aventurei noutros jardins. Jardins que me fascinaram desde logo, como o da casa da Bébé, amiga de infância que ainda espero rever um dia. Esse jardim já era mais exótico. Fascinou-me aquele pequeno lago com peixes vermelhos... Na minha imaginação infantil, situava-os em jardins na China, por exemplo. Fiquei simplesmente hipnotizada com os peixinhos coloridos. Mais tarde veria peixes exóticos em aquários iluminados, mas os do lago eram mais fascinantes. Outro pormenor que me encantou naquele jardim: foi lá que vi um pavão pela primeira vez. De onde surgiu, não sei. Abrira a cauda enorme, exuberante, e passeou-se assim, majestoso.

Este jardim assemelhava-se a uma caixa de surpresas, da dimensão do imprevisível, e isso passou a fascinar-me acima de tudo. Os gatos siameses também me foram apresentados por uma Bébé que adorava impressionar. Quanto ao jardim propriamente dito, não era tão arrumado, mas ainda assim seguia algumas regras gerais, como os canteiros definidos, curvilíneos, com muitos arbustos. E também tinha um cantinho para a horta.

Outro pormenor da casa, que me pareceu desde logo encantadora, era a varanda comprida coberta, como veria mais tarde nos filmes americanos dos anos 40, 50. Aí, depois dos TPC, bebíamos limonada fresca ou a especialidade da Bébé, os mazagran.

 

E depois, o jardim mais inquietante, o de uma casa ali tão perto, mas tão inacessível, sim... inacessível, não porque tivesse algum portão de entrada ou sequer algum impedimento para entrar. Mas precisamente porque esteve inabitada nesses anos da minha infância.

Havia uma alameda de tílias à entrada, sempre verdejante, e no final, a casa. Só este primeiro impacto me intimidou na altura. Do lado esquerdo da alameda de tílias, descobri numa manhã primaveril, umas florzinhas em forma de pequenos sinos, muito brancas e muito muito perfumadas! E do lado direito, na parte mais ampla do jardim, já em absoluto estado selvagem com as ervas altíssimas e as árvores rodeadas de alegre vegetação, descobri numa tarde, a piscina abandonada e a cabana ardida. Este jardim ainda me fascina, de tão quieto, selvagem e misterioso. Um jardim assim onde nos podemos perder.  (3)

Aprendi, nessas deambulações por jardins, que a minha natureza era mais do tipo fascinada e curiosa pelo selvagem e exótico, mas com uma base arrumadinha e previsível para manter uma vida simples e sensata.

 

Mais tarde deambulei por outros jardins, de livro e caderno na mão. Um dia destes voltarei a eles, os jardins de Lisboa, por exemplo. Sim, um  dia destes... Até lá, o meu jardim preferido na blogosfera: a quinta do Sargaçal.

 

 

 

(1) como no filme musical Mary Poppins.

(2) De qualquer modo, lá por ser doentiamente tímida, não quer dizer que não trepasse às árvores como qualquer miúdo, não adorasse jogos de grupo com acrobacias incluídas, ou não enchesse aquele jardim de cantorias muito à Marisol, inspirada pelos filmes que lá passavam no Clube.  

(3) Mais tarde quando li a Rebecca de Daphne du Maurier era sempre a esta casa que eu voltava. E também a ela voltei no filme O Império do Sol.

 

 

publicado às 12:14

João Bénard da Costa, a memória e a magia do Cinema

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.05.09

Como leitora d' O Independente nos anos 80 e 90 acompanhei todas as crónicas de João Bénard da Costa sobre Cinema, Arte, Vida.

Um dia de Novembro de 94 até respondi timidamente ao seu desafio de lhe enviarmos, enquanto leitores cinéfilos, o filme das nossas vidas...

Em Janeiro lá estava: Sei Para Onde Vou, de Powell e Pressburger. Ano: 45, parece-me, e a preto e branco. Guardei aquela crónica no lugar das coisas bem-amadas, claro está, falava de vento e de mar, de ideias fixas (da rapariga), das surpresas da vida (a impossibilidade de as concretizar) e das descobertas (a sua própria natureza, a sua verdade e o amor).

 

A primeira impressão que as pessoas me deixam é a sua voz. E é o que me fica na memória, antes mesmo do seu rosto. A de João Bénard da Costa é inconfundível, arranhada, um pouco nasalada, de fumador. Gostava de nos contar histórias e relacionar pessoas, personagens, almas perdidas ou encontradas, almas que se cruzam ou se desencontram.

Gostava de fotografias antigas e por aí começou, pelas da família e afinidades, depois o leque alargou-se e os actores e realizadores de cinema tornaram-se a sua família alargada. A eles se referia carinhosamente como muito lá de casa.

 

Adorava a sua Arrábida. Talvez ali se sentisse mais de companhia, com aquelas almas poéticas, histórias em écran iluminado, grutas labirínticas e o eterno som do mar... Foi ali que o filmaram recentemente num documentário, na sua Arrábida.

 

Ao João Marchante ocorreu-lhe o filme Ordet ao pensar em João Bénard da Costa.

A mim ocorre-me Mrs. Muir e uma das suas crónicas mais perturbadoras.

 

Deixa-nos a magia do cinema e a memória também: dificilmente encontraremos alguém com a sua memória enciclopédica e com a sua capacidade de relacionar factos e épocas, técnicas e criatividades, actores e vidas, realizadores e  sonhos...

João Bénard da Costa conciliava a cultura e a erudição de um antigo com a curiosidade e o entusiasmo de um menino.

De certo modo, é assim que o vejo: com os seus 4, 5 anos a olhar fascinado as fotografias antigas lá de casa.

 

 

publicado às 21:07

A sociedade actual tudo faz para justificar a sua organização

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.05.09

A ver se consigo transmitir aqui a ideia que me ocorreu hoje: a sociedade actual e as suas justificações, a sua lógica, para manter a sua organização.

Esta ideia ocorreu-me ao acompanhar, embora a alguma distância mental e emocional, as notícias, comentários, perspectivas, estratégias políticas, sobre um bairro de Setúbal ironicamente chamado Bairro da Bela Vista. Há até um lado perverso na escolha de nomes de bairros sociais.

A sociedade actual e a sua preocupação com a violência, mas apenas quando a violência é visível, em campo aberto, impossível de camuflar ou controlar.

Mas é de outra violência, muito mais intensa, dorida, limitativa, perversa até, de que D. Manuel Martins veio falar, de forma simples, clara e directa. É de uma violência que serve a lógica da linguagem do poder. A lógica que mantém os desequilíbrios sociais, não apenas na distribuição de recursos, mas também no acesso a formas de participação e pertença (isto tudo para fugir aos termos oportunidades, inclusão e integração social). E ainda no acesso à Justiça, pois claro. Quem é que vemos nas prisões? Os grandes crimes financeiros? No way! As grandes negligências políticas e profissionais? Not even one! E no entanto, estes integrados socialmente, incluídos socialmente, até admirados e elogiados socialmente, prejudicam muito mais e de forma mais profunda a própria sociedade no seu todo.

D. Manuel, segundo li recentemente, visita os presos regularmente. Mantém-se activo, mais de dez anos depois de ter voltado ao seu norte original. Dirige uma fundação filantrópica, é ele quem distribui os donativos generosos, mas de forma pedagógica, segundo percebi: promovendo a autonomia de quem ajuda.

A minha Igreja é esta, já o disse aqui noutro lugar: a de João XXIII. A que ainda vejo em D. Manuel Martins e também em D. Januário Torgal Ferreira e D. Carlos Azevedo.

D. Manuel não precisa da aprovação social e, segundo também tenho observado, nunca se guiou por essa bússula volúvel. O que o guia é certamente de outra natureza e é interior: a sua consciência, onde habitam valores, princípios, prioridades.

É esta a minha Igreja: a irmandade universal, a noção primeira e última que somos únicos, com um valor intrínseco, e todos temos, por isso mesmo, o direito de existir, viver e colaborar na comunidade.

Claro está que termos como irmandade universal ou bem comum soam risíveis à esquerda e à direita. Soam a New Age, hippies, ou bem pior, a teorias manhosas de pobres de espírito. Well, envergonham-me mais os termos que a sociedade actual utiliza por dá cá aquela palha ou sempre que lhe convém: oportunidades, inclusão social, integração social. Essas é que me arrepiam.

Se considerássemos todos os indivíduos de uma dada sociedade de igual forma, teríamos a necessidade de utilizar termos como inclusão e integração? Começa por aí! E quando se trata de os incluir e integrar, quais as soluções que engendra? Soluções que mantêm a dependência estatal ou a mendicidade perante organizações filantrópicas.

E dá sinais contraditórios, ainda por cima: lembram-se de muitos pequenos comércios de subsistência que a ASAE resolveu perseguir? E de uma tal economia paralela de subsistência, também perseguida nas feiras e mercados? 

Mas não é melhor, para todos, numa dada sociedade, que as pessoas se mantenham autónomas, com o seu engenho e arte, do que dependentes de subsídios? Não é mais digno trabalhar?

Outros sinais contraditórios: o que tem sido promovido socialmente? Não é o enriquecimento rápido? A aquisição de bens supérfluos? A promoção publicitária dos ricos e famosos como a nossa marca identitária? A promoção de produtos culturais de fraca qualidade, na televisão sobretudo? A informação ficcionada? Telenovelas com personagens de estrutura psicológica e formação  moral mais do que duvidosas?

E o que vê quem está fora da tal designação incluído ou integrado socialmente, porque está desempregado, porque lhe fecharam o tasco, porque nem sequer ainda conseguiu um primeiro emprego, nem mesmo precário com recibos verdes, porque a reforma não lhe dá para os medicamentos, nem para se manter no lar? Vê, mesmo à frente do nariz porque lhe entra pela casa dentro: os magos financeiros manhosos a manter-se na crista da onda, os políticos que trocam favores e influências a manter-se a navegar, os gestores do poder incompetentes e negligentes a manter-se à tona de água, e tudo entre sorrisos e abraços, os VIP's do costume.

Bem, quem ainda estiver a ler este post provavelmente interroga-se: E então a violência urbana justifica-se?

Não. Nenhum tipo de violência é justificável. (Bem, a não ser, em legítima defesa, mas isso já é mais complexo). 

Por isso comecei por referir que esta violência pode ser, em parte, a resposta a uma violência social, a negligência e indiferença social, a hipocrisia e cinismo social. Em parte é certamente.

A mesma sociedade que agora se indigna com a violência é a mesma que corta as asas a quem quer fazer alguma coisa digna da sua vida.

A mesma sociedade que agora se escandaliza com a violência é a mesma que promove os chico-espertismo financeiro e político.

A mesma sociedade que agora tem achaques com a violência é a mesma que utiliza uma linguagem verbal violenta.

Não. Nenhum tipo de violência é justificável. É por isso que uma sociedade saudável não permite nenhuma das suas formas: verbal, física, moral.

Como disse recentemente o Dalai Lama: compaixão com a pessoa, não com os seus actos.

Também Arno Gruen defende que não se trata de apagar, deletar, os erros e desculpabilizar tudo: a dignidade recupera-se com a compensação possível, aos lesados, pelos erros cometidos.

Ora, isto aplica-se a todos, a todos sem excepção. E by the way não será mais responsável o que está no topo da pirâmide do poder, o que tem mais influência social? Afinal de contas, um elefante não incomoda muito mais gente do que uma simples formiga? (Isto pegando no Harry Lime d' O Terceiro Homem)...

 

 

E daqui, um post de fôlego de José Adelino Maltez, um historiador da política e analista das nossas narrativas ocultas: Conjugando o abraço armilar, ao ritmo da heresia, contra o intervencionismo do estadão maizena.

 

 

Alguns dias depois: descobri este post n' A Barriga de um Arquitecto!

 

 

 

publicado às 07:55

E por falar em liberdade...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.05.09

E não é só na internet, claro está, que o poder político quer colocar a sua mãozinha gulosa. Na Inglaterra é no DNA de milhões de pessoas. Até me senti um E.T. a ler isto!

 

Cá é aquele cartão do cidadão com tudo incluído, os nossos dados, a nossa história. (E até parece que já revelou problemas em relação à sua utilização na funcionalidade-cartão de eleitor.)

 

Um país como o nosso, amigo de piratas (pois nem os contempla no Código Penal), a querer controlar a maltinha? Não cola.

 

Mas lá na Inglaterra aquilo promete. O Tribunal Europeu (acho que foi isso que percebi) exige que sejam apagados os dados do DNA, mas a polícia britânica (as secretas de lá?) querem um prazo que pode ir até mais de 10 anos...

 

Há um filme, em que até entra Gore Vidal, que nos revela um mundo organizado segundo o DNA: Gattaca. Vale a pena rever.

 

É por tudo isto que sinto uma nostalgia de um mundo e de um tempo de poemas como este:

 

                                   Fala do homem nascido

 

(Chega à boca de cena e diz:)

 

Venho da terra assombrada,

do ventre da minha mãe;

Não pretendo roubar nada

nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido

por me trazerem aqui,

que eu nem sequer fui ouvido

no acto de que nasci.

 

Trago boca para comer

e olhos para desejar.

Com licença, quero passar,

tenho pressa de viver.

Com licença! Com licença!

Que a vida é água a correr.

Venho do fundo do tempo;

não tenho tempo a perder.

 

Minha barca aparelhada

solta o pano rumo ao norte;

meu desejo é passaporte

para a fronteira fechada.

Não há ventos que não prestem

nem marés que não convenham,

nem forças que me molestem,

correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,

que a Natureza sou eu,

e as forças da Natureza

Nunca ninguém as venceu.

 

Com licença! Com licença!

Que a barca se faz ao mar.

Não há poder que me vença.

Mesmo morto hei-de passar.

Com licença! Com licença!

Com rumo à estrela polar.

 

 

(em: Poesias Completas, de António Gedeão)

 

 

 

publicado às 08:54

Será possível que o número místico 6,83 seja em breve ultrapassado?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.05.09

Segundo as estimativas avançadas hoje pela CE, o défice orçamental português deverá atingir os 6,5% este ano, devendo chegar aos 6,7% em 2010. Isto li há pouco no Jornal de Negócios online.

 

Será possível que o número místico 6,83 seja em breve ultrapassado?

O famoso Constancio number tão bem elaborado que poucos foram os iluminados a acompanhar aqueles cálculos?

Céus! Como a vida dá voltas! Por mim, preferia que isto nunca se viesse a verificar, nem o Constancio number nem a sua ultrapassagem...

 

E pensar que os orçamentos de estado do governo actual privilegiaram precisamente o controle do défice! A grande prioridade nacional!

(Claro está que o esforço foi do cidadão comum. Mas nem isso é reconhecido.)

 

                                               (No dia seguinte...)

 

Vale a pena ler este post do Delito de Opinião, sobretudo pelos comentários.

 

 

publicado às 23:18


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